Europa chega tarde às negociações da Ucrânia

The diplomatic route reaches Donetsk and rises into a wall.
Composição da imagem · tobriefOs enviados norte-americanos Steve Witkoff e Jared Kushner viajaram no sábado de Moscovo para Kyiv, completando a primeira ponte diplomática dos Estados Unidos entre as duas capitais neste esforço de mediação. Reuniram-se com Volodymyr Zelensky em três rondas de conversações, tendo os conselheiros de segurança nacional do Reino Unido, França e Alemanha entrado na sessão final (AP). Depois de mais de três horas com Vladimir Putin, os enviados chegaram a Kyiv sem um texto de acordo conhecido, sem cessar-fogo e sem um quadro negocial aceite pelas partes (Republic/Reuters). O processo mexeu. A substância, por enquanto, não.
Primeiro Moscovo, depois os outros
As conversações deixaram à vista três canais. O primeiro liga Washington a Moscovo: Witkoff e Kushner ouviram a posição de Putin, que o assessor do Kremlin Yuri Ushakov descreveu como «útil», ao mesmo tempo que insistia que a Rússia estava a ganhar no campo de batalha (Republic/Reuters). O segundo liga Washington a Kyiv: Zelensky colocou em cima da mesa território, mísseis Patriot, garantias de segurança e apoio para atravessar o inverno (Kyiv Independent). A Europa só entrou no terceiro momento. Os conselheiros do E3 — Reino Unido, França e Alemanha, que funcionam aqui como núcleo europeu de coordenação — participaram na última reunião com Zelensky, e todas as partes aceitaram voltar a encontrar-se, embora sem local definido (BR24, Il Fatto Quotidiano).
A ordem dos contactos é parte da mensagem. Washington ouviu primeiro Moscovo e levou depois a Kyiv o que pôde retirar dessa conversa. O analista finlandês Henri Vanhanen resumiu a dinâmica de forma direta: os Estados Unidos estão a perceber o que a Rússia oferece e a testar se a Ucrânia consegue viver com alguma parte disso (Verkkouutiset). A Europa chegou quando a agenda já estava, em larga medida, desenhada.
Donetsk continua a ser o bloqueio
O obstáculo mais duro é territorial. A Rússia não exige apenas as zonas que ocupa; reclama a totalidade das quatro regiões que diz ter anexado, incluindo áreas que a Ucrânia ainda controla (Seznam Zprávy). Uma fonte próxima do Kremlin disse à Reuters que não há «qualquer hipótese» de acordo sobre a linha da frente antes de Putin concluir a tomada do resto de Donetsk, algo que Moscovo acredita poder alcançar até ao fim do ano (AP). Zelensky reconheceu que a questão «continua relevante», mas afirmou que só poderá ser resolvida entre presidentes. A fórmula mantém a porta aberta sem entregar nada através dela.
A Europa tem poder, mas ainda não o consegue usar
Os governos europeus não podem ceder território ucraniano nem garantir sozinhos uma paz. Mas controlam instrumentos sem os quais qualquer acordo dificilmente se sustentará. Cerca de 210 mil milhões de euros em ativos congelados do banco central russo estão na Euroclear, a câmara de compensação sediada na Bélgica, o que coloca nas mãos europeias dinheiro que Moscovo quer recuperar (Euronews). As sanções da UE abrangem milhares de indivíduos e entidades russas, e levantá-las exige unanimidade entre os 27 Estados-Membros. A Comissão Europeia aprovou 6,1 mil milhões de euros para compras ucranianas de defesa aérea e antimíssil (EEAS). A Alemanha comprometeu 250 milhões de euros, através do seu banco público de desenvolvimento, para reparações urgentes na infraestrutura energética (MDR).
Cada uma destas alavancas tem o seu bloqueio. A Bélgica recusa libertar o capital dos ativos russos congelados sem uma partilha de risco à escala da UE; o ministro dos Negócios Estrangeiros, Maxime Prévot, avisou que medidas próximas da confiscação comportam «riscos muito significativos» (Le Soir). Suécia, Países Baixos, Espanha e Polónia responderam com uma carta conjunta a pedir à Comissão que distribua a responsabilidade por todos os Estados-Membros (Dutch government). No armamento, a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, apelou aos países com intercetores Patriot perto do fim de validade para os enviarem para a Ucrânia, mas os governos nacionais não libertaram mísseis dos seus próprios arsenais (ABC). O dinheiro existe. A vontade política de o transformar em poder negocial ainda não.
A mensagem mais clara de Zelensky nas reuniões de Kyiv não foi sobre um acordo. Foi sobre sobrevivência durante o inverno. O Presidente ucraniano pediu um pacote que cubra defesa aérea, infraestrutura energética e eventuais fornecimentos norte-americanos de gás natural liquefeito (Kyiv Independent). O pedido expõe um problema de calendário: o inverno avança mais depressa do que a diplomacia, e a Ucrânia precisa de compromissos antes de qualquer arquitetura de paz estar pronta.
A diplomacia itinerante mostrou que Kyiv e o E3 estão agora dentro da conversa, não à espera do lado de fora. Mas acesso não é controlo. O dinheiro europeu, os ativos congelados e os arsenais nacionais dão à Europa peso real em qualquer entendimento futuro. Falta saber se esse peso se traduzirá numa voz efetiva à mesa, ou se os líderes europeus continuarão como consultores de um processo norte-americano, chamados a pagar por resultados que não ajudaram a definir.
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