Nórdicos da NATO apertam Wang

The security architecture of the East moves to the center of the diplomatic table.
Composição da imagem · tobriefA visita do ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, à Dinamarca, Suécia, Finlândia e Noruega, no início de julho, foi apresentada por Pequim como uma ronda sobre parceria e comércio livre. Na Suécia, foi a primeira visita de um chefe da diplomacia chinesa em 22 anos. Mas os governos nórdicos colocaram outro tema no centro das conversas: a relação da China com a Rússia passou a ser, para a Europa, uma questão de segurança, e já não um assunto lateral que possa ser separado da agenda económica.
Há poucos anos, Wang teria encontrado uma região diferente. A Finlândia e a Suécia mantinham-se fora de alianças militares, negociavam com Pequim sobretudo em torno do comércio e deixavam a segurança para outro plano. A Dinamarca e a Noruega, embora membros fundadores da NATO, seguiam uma lógica semelhante. A invasão russa da Ucrânia alterou esse equilíbrio. Depois de a Finlândia ter aderido à NATO em 2023 e a Suécia em 2024, Wang encontrou quatro governos aliados cuja política de segurança assenta na dissuasão da Rússia — precisamente a potência que Pequim é acusada de apoiar, pelo menos indiretamente, no esforço militar.
A Finlândia traçou a linha
A Finlândia foi a mais direta. A ministra dos Negócios Estrangeiros, Elina Valtonen, colocou a guerra da Rússia e a segurança europeia no centro das conversas com Wang (Governo finlandês). Disse publicamente que o apoio à Rússia põe em causa a segurança europeia e lamentou o aprofundamento da cooperação entre Pequim e Moscovo (Yle). Para Helsínquia, que partilha uma fronteira de 1 340 quilómetros com a Rússia e constrói a sua política externa em torno da defesa da independência e da integridade territorial (Ministério dos Negócios Estrangeiros finlandês), esta não é uma formulação abstrata. Valtonen falou como representante de um aliado da NATO na linha da frente, não como mediadora cautelosa.
A Dinamarca transmitiu a mesma mensagem, ainda que envolta numa linguagem mais económica. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Lars Løkke Rasmussen, afirmou estar «profundamente preocupado» com o apoio da China à guerra da Rússia, ao mesmo tempo que reconheceu a importância do mercado chinês para as empresas dinamarquesas (Politiken). Wang pediu a Copenhaga que desempenhasse um «papel construtivo» nas relações entre a UE e a China, mas a afirmação chinesa de que Løkke teria elogiado a cooperação comercial bilateral não foi confirmada pelo lado dinamarquês (BT). Na Suécia, a ministra Maria Malmer Stenergard identificou a Ucrânia como um dos temas principais e levantou ainda o caso de Gui Minhai, o editor sueco detido pela China.
O que Wang conseguiu, e o que não conseguiu
A viagem decorreu num contexto mais duro em Berlim. O Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão convocou o embaixador chinês depois de surgirem relatos de que militares russos teriam recebido treino em instalações militares chinesas. A Reuters citou documentos internos das Forças Armadas russas; o jornal Welt citou serviços de informações europeus (t-online, n-tv). Não há uma cadeia pública de prova completa, e Pequim nega a acusação. Ainda assim, confirmada ou não, a alegação torna mais difícil para qualquer governo europeu tratar a China apenas como parceiro comercial.
Wang procurou apresentar a ronda como diplomacia de aproximação. A China afirmou que a visita ocorreu a convite dos ministros dos Negócios Estrangeiros nórdicos. O vocabulário preferido de Pequim continua a ser parceria, comércio livre e cooperação aprofundada, uma linguagem que serve também para diluir a agenda europeia de «redução de riscos», isto é, a tentativa de diminuir dependências críticas face à China sem cortar por completo os laços económicos.
O canal europeu com Pequim permanece aberto. Bruxelas e a China lançaram, no final de junho, consultas comerciais ao nível ministerial, com prazo até outubro para apresentarem resultados (EUnews). A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, avisou que a UE agirá se Pequim não mostrar progressos concretos em matéria de reciprocidade comercial até essa data (Euronews). Desde 2019, a UE classifica a China, em simultâneo, como parceira de cooperação, concorrente económica e rival sistémica (Comissão Europeia).
As capitais nacionais não definem sozinhas a política comercial da UE. Essa competência pertence ao nível europeu. Mas os governos moldam o ambiente político no Conselho Europeu, onde os chefes de Estado e de Governo fixam a orientação da União. Uma semana em que quatro países nórdicos ligaram publicamente a China à Rússia torna esse ambiente menos favorável a concessões quando chegar o prazo de outubro.
A ronda não produziu resultados concretos: não houve acordo sobre a Ucrânia, concessão comercial visível ou novo plano de sanções. Wang conseguiu acesso. Os nórdicos mantiveram aberto o canal diplomático, mas deixaram claro que qualquer conversa mais calorosa com Pequim terá agora um preço político: falar da Rússia.
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