Primeiro julgamento do Nord Stream sem mandantes

Hamburg’s judges can decide guilt without naming who ordered the blast.
Composição da imagem · tobriefNa quarta-feira, 14 de outubro, começa em Hamburgo o primeiro julgamento de alguém acusado de participar na sabotagem dos gasodutos Nord Stream, em 2022 (tribunal de Hamburgo, dpa via Die Zeit). O arguido, um oficial do Exército ucraniano identificado como Serhii K., está acusado de um crime de guerra. Os juízes podem decidir se é culpado sem apurar quem, se alguém, deu a ordem.
O que dizem os procuradores
Os procuradores federais alemães alegam que K. ajudou a liderar uma equipa que partiu da ilha alemã de Rügen num iate fretado. Segundo a acusação, a equipa instalou cargas temporizadas nos gasodutos, perto de Bornholm, antes das explosões de 26 de setembro de 2022 (Tribunal Federal de Justiça).
Os procuradores afirmam ainda que K. agiu em nome de órgãos do Estado ucraniano. O comunicado público não identifica qualquer ministério nem qualquer responsável (procuradores federais).
Não foi tornada pública qualquer confissão. O processo assenta sobretudo em registos de viagem. Em dezembro de 2025, quando o mais alto tribunal penal alemão decidiu manter K. em prisão preventiva, apontou dados da fronteira polaca, um passaporte com nome falso e a fotografia de K., e uma comparação pericial de imagens (decisão).
A defesa contesta que esses elementos o coloquem no mar. Segundo a ZDF, não há qualquer correspondência de impressões digitais ou de ADN que o situe a bordo; um dos advogados transmite a versão de K., segundo a qual este estava na Ucrânia na altura (ZDF).
Se os gasodutos eram um alvo legítimo
A defesa invoca também um argumento subsidiário, que toca no essencial da acusação. À luz das leis da guerra, atacar um bem civil, sem função militar, pode constituir um crime de guerra; um ataque a um alvo militar pode não o ser. A acusação contra K. só se sustenta se o Nord Stream for considerado uma infraestrutura civil.
Os advogados perguntam, por isso, se os gasodutos, que geravam receitas para a Rússia durante a invasão, poderiam ter sido um alvo legítimo. O Tribunal Federal de Justiça rejeitou esse argumento na fase da prisão preventiva: concluiu que as receitas indiretas do gás não transformavam os gasodutos em alvos militares (Tribunal Federal de Justiça).
O que a sentença não tem de esclarecer
O julgamento em Hamburgo é o de K., não o da Ucrânia. A 30 de setembro, os juízes recusaram o pedido das empresas que operam os gasodutos para se juntarem ao processo como co-demandantes, ou seja, partes privadas com direitos processuais próprios ao lado da acusação. Entenderam que o julgamento diz respeito à conduta e à culpa do arguido, e não deve servir para preparar eventuais pedidos de indemnização da Rússia contra a Ucrânia (tribunal de Hamburgo).
Podem ainda surgir nos autos indícios sobre quem deu as ordens. Jornalistas que analisaram a acusação referem chamadas intercetadas durante a detenção de K. em Itália, nas quais este terá sugerido que não agiu sozinho e que se sentia abandonado por Kyiv (investigação liderada pela ARD).
A posição pública de Kyiv é mais limitada do que uma negação categórica. A 9 de julho, o procurador-geral da Ucrânia afirmou que a investigação ucraniana não encontrara factos que demonstrassem a participação do Estado e propôs uma investigação conjunta com a Alemanha (Reuters).
As explosões não interromperam o abastecimento de gás à Europa, porque as entregas do Nord Stream 1 já tinham cessado no início de setembro de 2022 (Agência Federal das Redes). O que está em causa para a Europa é a aplicação da lei, como mostram as decisões de dois outros países da UE sobre um segundo suspeito.
A Alemanha quer que Volodymyr Zhuravlov, um alegado mergulhador, seja entregue ao abrigo de um mandado de detenção europeu, mecanismo da UE destinado a tornar quase rotineira a entrega de suspeitos entre Estados-Membros. Em outubro de 2025, um juiz de Varsóvia recusou entregá-lo. Considerou que um presumível ataque ucraniano à infraestrutura de um agressor poderia ser um ato legítimo do Estado, e não um crime a julgar; o primeiro-ministro Donald Tusk já tinha dito que a entrega não era do interesse da Polónia (PAP).
A Croácia decidiu de outro modo. Um coletivo de três juízes autorizou a entrega de Zhuravlov a 18 de setembro, mas está pendente um recurso (HRT, tportal).
Nenhum dos tribunais decidiu se a sabotagem foi um crime. Cada um avaliou apenas se devia entregar um suspeito, e a decisão croata ainda pode ser anulada. Ainda assim, um juiz polaco admitiu que poderia ser legítimo aquilo que os procuradores alemães classificam como crime de guerra. Os governos que têm cabos e gasodutos submarinos têm motivos para acompanhar a decisão dos juízes de Hamburgo.
Se condenarem K. pelo crime de guerra, os juízes terão concluído que um oficial ucraniano atacou infraestruturas civis, violando as leis da guerra. Podem chegar a essa conclusão sem atribuir a alegada orientação do Estado a alguém. Cabe aos procuradores federais alemães, que alegaram essa orientação sem identificar quem a deu, e ao procurador-geral da Ucrânia, cujo gabinete afirma não ter encontrado provas nesse sentido, esclarecer quem apoiou a operação.
Details about this article
- Model:
- claude-opus-5-5
- Generated:
- 10/12/2026, 1:40:06 AM
- Pipeline run:
- eu_pipeline_20261012_005007
- Watermark:
- SynthID (Google's invisible watermark)
- Human review:
- None before publication