Rússia mira subestações ucranianas

Europe races to replace the grid before Russia strikes again.
Composição da imagem · tobriefO Ministério da Defesa russo anunciou, a 30 de agosto, que estava a preparar «ataques maciços» contra a infraestrutura energética da Ucrânia, apresentando-os como resposta aos ataques ucranianos contra refinarias russas (Euronews, The Irish Times). O comunicado não indicou datas, alvos concretos nem o tipo de armamento previsto. Ainda assim, a ameaça deve ser levada a sério: ao longo de dois invernos, Moscovo mostrou que consegue atingir precisamente os pontos do sistema energético ucraniano que o dinheiro europeu, as peças sobresselentes e a defesa antiaérea não conseguem repor com rapidez suficiente.
Onde a Rússia aprendeu a apontar
A diferença entre o último inverno e o que se aproxima está na escolha dos alvos. Quase 60% dos ataques russos verificados contra infraestruturas energéticas entre outubro de 2025 e abril de 2026 atingiram subestações mais pequenas, contra 31% no inverno anterior (The Washington Times). A mudança é relevante porque a Ucrânia tem cerca de 120 grandes subestações de alta tensão, que podem ser reforçadas e defendidas uma a uma. Os nós menores de distribuição contam-se aos milhares. Nenhum sistema de defesa aérea consegue cobri-los a todos.
A Rússia explora o conhecimento detalhado que herdou da rede elétrica ucraniana, construída no período soviético, para desligar produtores de energia da rede e atrasar reparações (IEA). O OSW, centro polaco de estudos de segurança, concluiu que a época de aquecimento de 2025-26 foi a primeira em que Moscovo conseguiu perturbar em grande escala os sistemas urbanos de aquecimento central, transformando cortes de eletricidade em falhas de aquecimento, água e saneamento (OSW). A campanha deixou de visar apenas a corrente elétrica. Passou a atacar as condições mínimas de vida nas cidades.
A troca de golpes está a intensificar-se. Volodymyr Zelenskyy ordenou, a 29 de agosto, que os ataques de drones de longo alcance contra a Rússia fossem triplicados para 1 000 por dia (The Guardian). As forças ucranianas atingiram refinarias russas pelo menos 21 vezes em agosto, incluindo a instalação de Kirishi, perto de São Petersburgo (NV). O anúncio de Moscovo funciona, por isso, como ameaça de retaliação, mas também como instrumento de pressão antes do inverno.
Três instrumentos, todos com estrangulamentos
A Europa tem três formas principais de ajudar a Ucrânia a atravessar mais uma campanha energética russa. Nenhuma depende apenas da vontade política expressa em comunicados.
A primeira são as importações de eletricidade. A rede ucraniana está sincronizada com a Europa continental desde março de 2022, o que permite fluxos de energia através das fronteiras com a Eslováquia, Hungria, Roménia e Polónia. A capacidade que a Ucrânia consegue efetivamente comprar e receber ronda 2,1 GW (Green Deal Ukraina). Em fevereiro de 2026, as importações atingiram um recorde de 1 262,8 GWh, utilizando quase 90% da capacidade disponível (DiXi Group). É uma linha de vida real, mas limitada: importações não substituem centrais destruídas.
A segunda é a cadeia de reparação. A Comissão Europeia afirma que o apoio anterior permitiu entregar mais de 7 000 transformadores, seis autotransformadores, mais de 11 000 geradores e milhares de componentes elétricos (European Commission, EEAS). A 24 de agosto, a Comissão aprovou 6,1 mil milhões de euros para a defesa aérea e antimíssil ucraniana (European Commission). Mas uma chamada com doadores, em junho, reconheceu que o Fundo de Apoio Energético à Ucrânia estava já totalmente alocado, com necessidades de inverno por financiar superiores a 650 milhões de euros (energy.ec.europa.eu). O bloqueio físico é ainda mais difícil de contornar: grandes transformadores de 330 a 750 kV demoram 12 a 18 meses a fabricar (DIIS). O dinheiro pode chegar em semanas. O equipamento operacional, não.
A terceira é a defesa aérea, onde a distância entre necessidade e capacidade é maior. Zelenskyy disse, a 8 de agosto, que existia um acordo com os Estados Unidos para entregas mensais de intercetores Patriot, mas que os volumes eram insuficientes (Euromaidan Press). Um sistema sueco-dinamarquês de defesa aérea de curto alcance só deverá chegar dentro de 12 meses (regeringen.se).
A corrida da substituição
A resposta nórdica e báltica é, até agora, a mais concreta. A Suécia comprometeu quase 1,5 mil milhões de coroas suecas (cerca de 130 milhões de euros), em junho, para reforçar o abastecimento energético ucraniano, através de geradores, baterias e trabalho de segurança nuclear com a AIEA (regeringen.se). A Lituânia entregou 28,31 toneladas de equipamento de rede a Kyiv e Zhytomyr, a 28 de agosto, incluindo transformadores e material de proteção contra sobretensões (Ukrainska Pravda, Censor.NET). A Finlândia colocou 40 milhões de euros na PURL, uma via de aquisição da NATO que compra equipamento norte-americano de defesa aérea para a Ucrânia (defmin.fi).
A vantagem russa está no tempo. A Europa consegue financiar a Ucrânia mais depressa do que consegue fabricar transformadores ou alargar a defesa aérea a milhares de pequenos alvos. Se os intercetores e o equipamento de rede chegarem antes do início de ataques prolongados, essa vantagem diminuirá. Os ciclos de produção sugerem que não diminuirá o suficiente.
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