Plano de Trump depende da Europa

Europe holds the levers but remains outside the negotiating room.
Composição da imagem · tobriefSteve Witkoff e Jared Kushner, os principais negociadores do Presidente Donald Trump para a Ucrânia, viajam no sábado para Moscovo, onde se encontrarão com Vladimir Putin, seguindo no domingo para Kyiv para conversações com Volodymyr Zelenskyy (Axios). A escala ucraniana é nova: os dois enviados já se reuniram várias vezes com Putin, mas nunca tinham visitado a Ucrânia, apesar de Kyiv os ter convidado durante meses (Kyiv Independent). Trump disse que levavam «uma proposta para acabar com a guerra», sem revelar o conteúdo (RFE/RL).
Nenhum texto foi publicado. Um anterior esboço de cessar-fogo, de uma página, acordado entre Zelenskyy e responsáveis norte-americanos, foi rejeitado pelo Kremlin em poucos dias (RBC-Ukraine, Kyiv Independent). O documento que os enviados transportam agora pode ser uma versão revista, uma nota de negociação ou outra coisa completamente diferente.
A Rússia vê a deslocação como oportunidade, não como concessão
Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, descreveu como «inabalável» a exigência de Putin de que a Ucrânia ceda as quatro regiões reivindicadas por Moscovo e abandone a ambição de aderir à NATO (Internazionale/Reuters). Uma fonte próxima do Kremlin disse à Reuters que não havia «qualquer hipótese» de acordo sobre a linha da frente enquanto a Rússia não terminar a tomada do resto de Donetsk. Moscovo espera que a correlação militar lhe seja mais favorável até ao fim do ano (Internazionale/Reuters). Informações dos serviços de inteligência citadas pela Bloomberg e noticiadas na Lituânia apontam na mesma direção: as expectativas de um avanço são «extremamente baixas» (Delfi).
Segundo a imprensa ucraniana, Moscovo tentou impedir que a viagem incluísse Kyiv (RBC-Ukraine). A Rússia prefere um canal directo com os Estados Unidos, no qual a posição ucraniana entra tarde ou já filtrada. Putin falou publicamente numa «hipótese» de paz ao mesmo tempo que ameaçava novos ataques em larga escala contra a infraestrutura energética ucraniana (BBC, Agerpres).
Kyiv mantém a porta de saída aberta
Zelenskyy não subscreveu a proposta desconhecida. Disse apenas que a Ucrânia iria «ver que propostas Steve e Jared têm e o que Moscovo lhes dirá» (Liga.net). A formulação preserva a margem de Kyiv para rejeitar, rever ou condicionar qualquer texto depois de conhecer a resposta russa.
Kyiv tem também poder jurídico para recusar. A Constituição ucraniana exige um referendo nacional para qualquer alteração territorial, e uma análise da OPORA, organização cívica ucraniana, concluiu que nenhum responsável tem autoridade clara para ceder território sem essa consulta (OPORA). Juristas de direito internacional no EJIL:Talk defenderam separadamente que um tratado imposto pela força poderia ser contestado como ilegal ao abrigo da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (EJIL:Talk).
Até a logística da visita expôs o problema de fiscalização. Zelenskyy ofereceu-se para suspender ataques ucranianos enquanto os enviados estivessem em Moscovo e pediu à Rússia que fizesse o mesmo durante a reunião em Kyiv (Censor.NET). Washington teve de procurar garantias de segurança separadas junto de cada lado, porque não existe um canal directo de comunicação entre a Rússia e a Ucrânia (Delfi). Se uma pausa de dois dias para permitir deslocações diplomáticas exige compromissos bilaterais negociados por um terceiro, um cessar-fogo duradouro precisará de um sistema de verificação muito mais robusto.
A Europa controla instrumentos que Washington não pode contornar
O itinerário público não atribui qualquer papel a governos europeus em nenhuma das reuniões (Axios). Mas os instrumentos necessários para tornar exequível qualquer acordo estão, em larga medida, nas mãos europeias, distribuídos por vários actores.
As sanções vêm primeiro. As medidas restritivas da União Europeia contra a Rússia exigem uma decisão do Conselho da UE, onde os governos dos Estados-Membros têm de chegar a unanimidade, e nenhum entendimento bilateral entre Washington e Moscovo pode sobrepor-se a esse procedimento (Consilium). Qualquer fórmula de paz que prometa a Moscovo alívio sancionatório precisa do acordo de todas as capitais europeias.
Depois, há os activos congelados. Cerca de 210 mil milhões de euros em fundos imobilizados do banco central russo encontram-se sobretudo na Euroclear, uma câmara de compensação financeira sediada em Bruxelas e regulada pela lei belga. Maxime Prévot, ministro dos Negócios Estrangeiros da Bélgica, recusou publicamente tratar esses fundos como se estivessem disponíveis para uma utilização próxima da confiscação (Euronews, Le Soir). Se algum acordo pressupuser que dinheiro russo financiará a reconstrução, a Bélgica, por si só, pode travar ou atrasar esse caminho.
Por fim, as garantias de segurança. A UE aprovou uma tranche de 6,1 mil milhões de euros para a defesa aérea da Ucrânia (EEAS). Uma Coligação dos Dispostos multinacional está a preparar tropas para um eventual destacamento após um cessar-fogo, com exercícios conjuntos previstos para este outono (UK government). Em ambos os casos, as decisões pertencem aos Estados europeus individualmente, não a Washington.
Washington pode redigir um texto. Não pode entregar alívio de sanções, decidir sobre activos congelados nem fornecer garantias europeias de segurança sem a Europa. Aqueles que terão de pagar e fiscalizar qualquer acordo não foram chamados a desenhá-lo.
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