Buraco de €23.5bn aperta Kiev

Europe approves the weapons while Ukraine waits for them to move.
Composição da imagem · tobriefA Ucrânia já esgotou o orçamento de defesa previsto para 2026. Volodymyr Zelenskyy estima a falta de financiamento em 27 mil milhões de dólares, cerca de 23,5 mil milhões de euros (Presidência da Ucrânia, DW Ucrânia). A União Europeia tem aprovado um pacote de empréstimos de 90 mil milhões de euros para Kiev, fechado pelo Conselho em abril (SEAE/Conselho). Mas dinheiro autorizado e dinheiro disponível não são a mesma coisa. A distância entre uma coisa e outra tornou-se o principal problema financeiro da guerra.
Milhares de milhões aprovados, dinheiro atrasado
Em 24 de agosto, a Comissão Europeia aprovou 6,1 mil milhões de euros em novas compras de defesa para a Ucrânia, incluindo sistemas antiaéreos, munições e radares (Comissão Europeia). Os planos de aquisição já aprovados ultrapassam agora 22 mil milhões de euros. No entanto, até ao final de julho, apenas 8,35 mil milhões de euros tinham chegado efetivamente à Ucrânia (Comissão Europeia, Brussels Signal).
O bloqueio está nos contratos. Kiev não pode simplesmente levantar fundos já aprovados: tem primeiro de fechar acordos com fabricantes de armamento e enviar esses contratos à Comissão para verificação. Só depois dessa análise é que o dinheiro é libertado (Brussels Signal). Como mecanismo de controlo financeiro, a lógica é compreensível. No terreno, significa que milhares de milhões ficam em fila administrativa enquanto o exército precisa de equipamento de imediato.
O empréstimo de 90 mil milhões de euros divide-se entre 60 mil milhões para compras de armamento e 30 mil milhões para apoio orçamental ao longo de 2026 e 2027 (SEAE/Conselho). A parte destinada ao orçamento vem acompanhada de condições: antes de cada pagamento, a Ucrânia tem de cumprir metas em matéria de Estado de direito e combate à corrupção, condições que os governos europeus reforçaram em julho (European Pravda, Brussels Times).
Isto pesa porque o buraco identificado por Zelenskyy não diz respeito apenas a armas. Cerca de 20 mil milhões de dólares destinam-se a salários militares e pagamentos às famílias de soldados mortos. Outros 8 a 10 mil milhões de dólares são necessários para pré-financiar encomendas de armamento que se prolongam até ao início de 2027 (DW Ucrânia, UA News). Aprovar compras, por maior que seja o montante, não paga salários aos soldados.
Trazer dinheiro de 2027 para 2026 — e por que isso não chega
A solução proposta por Zelenskyy é direta: antecipar para este ano parte da dotação prevista para 2027 (Presidência da Ucrânia). Até 25 de agosto, porém, a Ucrânia ainda não tinha apresentado à Comissão um pedido formal nesse sentido. Um porta-voz da Comissão afirmou que Bruxelas estava pronta para ajudar «na maior medida possível», mas que não tinha recebido qualquer solicitação oficial (Kyiv Independent).
Mesmo que a antecipação avance, tratar-se-á apenas de mudar o calendário dentro dos mesmos 90 mil milhões de euros. O Conselho Consultivo Científico do Ministério das Finanças alemão estimou que, mesmo contabilizando todo o compromisso europeu, ainda poderão faltar cerca de 45 mil milhões de euros para 2026-27 (Conselho Consultivo Científico do BMF). Cálculos de Berlim citados pela FAZ apontam para necessidades de defesa ucranianas que podem chegar a 70 mil milhões de euros por ano, enquanto o atual modelo europeu entrega cerca de 30 mil milhões anuais em aquisições (FAZ).
Quem paga, quem ganha
O empréstimo tem regras sobre a origem do armamento: não mais de 35% do valor pode vir de fora da UE, do Espaço Económico Europeu alargado e da Ucrânia, salvo autorização de Bruxelas (Delfi). Nove ministros da Defesa europeus pressionaram a Comissão a dispensar essa regra para que Kiev possa comprar sistemas antiaéreos Patriot norte-americanos sem atrasos (Euromaidan Press). França defende o contrário: limites mais apertados, argumentando que o empréstimo deve também reforçar a indústria europeia de defesa (Euronews). Os fabricantes europeus de armamento ganham com essa regra; o exército ucraniano paga o custo da demora.
Os ativos russos congelados oferecem uma saída parcial. A UE já transferiu 8 mil milhões de euros em lucros gerados por cerca de 210 mil milhões de euros em ativos imobilizados do banco central russo, a maior parte detida na câmara de compensação Euroclear, em Bruxelas (Comissão Europeia, Council on Foreign Relations). Mas esses lucros cobrem apenas uma fração da necessidade. Confiscar o capital propriamente dito, uma hipótese que a ministra dos Negócios Estrangeiros sueca quer reabrir (Euractiv), esbarra na recusa da Bélgica em assumir sozinha o risco de uma eventual indemnização de 200 mil milhões de euros caso um tribunal venha a decidir contra essa solução (Kyiv Independent).
O empréstimo de 90 mil milhões de euros está a funcionar: 11,6 mil milhões de euros tinham sido desembolsados até ao final de julho. O problema é que a despesa de guerra da Ucrânia está a avançar mais depressa do que o calendário europeu de pagamentos, e o défice restante é demasiado grande para ser fechado apenas com aprovações de compras ou lucros de ativos congelados. Os Estados-Membros terão agora de escolher entre pôr dinheiro novo em cima da mesa ou tratar os 90 mil milhões como o teto do apoio europeu.
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