Washington quer enclaves na Gronelândia

The demand for permanent sovereign soil on a landscape that refuses to be owned.
Composição da imagem · tobriefOs Estados Unidos mantêm bases militares na Europa em território que não lhes pertence. Na Alemanha, em Itália ou em Portugal, a soberania formal continua a ser do Estado anfitrião, que conserva, pelo menos juridicamente, o direito de recusar acessos ou operações. O que Washington estará a pedir na Gronelândia mudaria essa lógica: transformaria uma presença militar consentida numa cedência territorial permanente, indo além dos acordos hoje existentes.
Relatos publicados a 18 de maio dão conta de negociações trilaterais secretas em que os EUA procuram três garantias: uma «cláusula de eternidade» que assegure a presença permanente de tropas mesmo depois de uma eventual independência gronelandesa; um poder efetivo de veto sobre investimento estrangeiro; e três novas bases classificadas como «território soberano americano» (United24 Media, Times Now). Horas depois, o primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, reuniu-se com o enviado de Trump, Jeff Landry, e respondeu sem rodeios: «O povo gronelandês não está à venda» (Copenhagen Post, ABC Nyheter).
O manual das Lajes, agora por escrito
O atual acordo de defesa entre os EUA e a Dinamarca, assinado em 1951 e atualizado em 2004, já dá a Washington uma margem ampla de utilização. A base espacial de Pituffik ocupa 625 quilómetros quadrados. Mas as instalações americanas funcionam em solo dinamarquês-gronelandês, não em território pertencente aos Estados Unidos (SOF News).
A exigência de território soberano alteraria essa equação. O precedente europeu mais próximo são Akrotiri e Dhekelia, no Chipre, áreas que o Supremo Tribunal britânico descreveu como «o remanescente da colónia britânica» (DW). O veto ao investimento é igualmente invulgar: Washington quer poder de triagem sobre a economia gronelandesa, numa altura em que a própria lei da Gronelândia para escrutinar investimento estrangeiro foi adiada para o outono de 2026. Os EUA procuram controlar um mecanismo que ainda nem sequer existe (Arctic Today).
O modelo atual de bases americanas já está a mostrar limites na Europa. Em março, Itália recusou o acesso de bombardeiros dos EUA a Sigonella para operações contra o Irão, invocando a necessidade de autorização parlamentar (Analisi Difesa). Em Portugal, ministros admitiram que os EUA poderiam usar a base das Lajes através de «autorizações tácitas», com Lisboa a ser informada depois dos movimentos em vez de autorizar previamente cada operação (CNN Portugal). A proposta para a Gronelândia daria forma jurídica ao que Portugal vive de modo informal, e depois iria mais longe.
A paralisia de Copenhaga, o veto de Nuuk
A Dinamarca está há oito semanas sem um governo plenamente funcional. O executivo de gestão não pode vincular o parlamento e a Constituição dinamarquesa exige uma maioria de cinco sextos para ceder território (POV International). Está a ser tentada a formação de um novo governo minoritário de centro-direita, mas nada ficou ainda fechado (Politiken).
A Gronelândia ocupa esse vazio com os seus próprios instrumentos constitucionais. Ao abrigo da Lei de Autogoverno de 2009, que deu à Gronelândia controlo sobre os seus recursos e a sua política comercial, separando essas matérias de Copenhaga, o parlamento local pode bloquear investimentos e concessões de exploração. Nielsen, de centro-direita, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Múte B. Egede, da esquerda socialista, rejeitam ambos as exigências americanas. Esse consenso transversal é a principal carta de Nuuk (ABC Nyheter).
A compra discreta
A União Europeia não tem mandato jurídico para intervir nas negociações sobre bases na Gronelândia. O território saiu da Comunidade Europeia em 1985. O Parlamento Europeu classificou o comportamento dos EUA como «uma grande ameaça aos interesses estratégicos da UE» (Constitutional Discourse), mas o efeito estratégico pesa mais do que qualquer declaração de Bruxelas.
A França atua sozinha. O ministro do Comércio, Nicolas Forissier, visitou Nuuk a 15 de maio e assinou um acordo de cartografia geológica com o instituto estatal BRGM (Capitol.fr). A Alemanha apoia verbalmente a Dinamarca, mas não apresenta uma estratégia para o Ártico (Spiegel). A Polónia mantém-se em silêncio; a relação bilateral com Washington pesa mais do que a solidariedade nórdica (Defence24).
A disputa económica pode já estar mais adiantada do que a militar. A Critical Metals Corp, controlada por interesses americanos, detém 92,5% do depósito Tanbreez, na Gronelândia, a maior fonte ainda por desenvolver de terras raras pesadas fora da China. Essa posição foi assegurada com apoio do EXIM Bank, o que significa que financiamento público americano ajudou a fechar o acesso ao recurso enquanto o confronto sobre as bases dominava a atenção política (Le Monde, IFRI). O financiamento europeu para mineração no Ártico continua, segundo a formulação citada, «em larga medida por mobilizar». Landry afirmou que Trump lhe disse para «fazer tantos amigos quanto possível» (RTE). Nenhum pacote económico foi anunciado. Enquanto as conversas sobre soberania bloqueiam, os EUA estão a garantir controlo económico sem precisarem de uma cedência formal de Nuuk.
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