EUA cortam bombardeiros e submarinos à NATO

The aerial refueling systems that enable NATO's reach are being withdrawn from Europe.
Composição da imagem · tobriefMenos metade dos bombardeiros. Nenhum submarino. Menos um terço dos caças. Numa reunião à porta fechada em Bruxelas, no final de maio, o Pentágono comunicou aos aliados da NATO que reduzirá de forma acentuada os meios aéreos e navais prometidos para cenários de crise na Europa, precisamente os sistemas que tornam exequíveis os planos de defesa da Aliança. Os aliados europeus terão de apresentar propostas para cobrir estas falhas numa Force Sourcing Conference, a reunião em que os países indicam formalmente que unidades disponibilizam para cada necessidade operacional, no início de junho. A cimeira da NATO em Ancara, a 7 e 8 de julho, será o prazo político (Reuters/Der Spiegel, The Deep Dive).
O corte não incide sobretudo sobre tropas. Incide sobre os chamados “enablers”: aviões-cisterna, aeronaves de guerra eletrónica, drones de reconhecimento, submarinos de ataque. Sem estes meios, as forças europeias podem existir no papel, mas têm dificuldade em operar numa guerra real.
Os sistemas que fazem funcionar todos os outros
O Modelo de Forças da NATO, aprovado na cimeira de Madrid de 2022, atribui antecipadamente 800 000 militares a três níveis de prontidão e a planos regionais de defesa concretos. Esses planos, desenhados na cimeira de Vilnius de 2023, cobrem o Báltico, o Atlântico e o Mediterrâneo. Foram escritos partindo do princípio de que os meios norte-americanos estariam disponíveis (NATO).
É aqui que a dependência se torna operacional. Os caças precisam de aviões-cisterna para atravessarem o Báltico; as aeronaves precisam de guerra eletrónica para sobreviverem às defesas antiaéreas russas; os grupos navais dependem de submarinos de ataque para proteção no domínio subaquático. São estas categorias que Washington pretende retirar.
O briefing foi feito aos diretores políticos da NATO por um conselheiro sénior do secretário da Defesa, Pete Hegseth. Uma porta-voz da Aliança reconheceu uma “dependência excessiva dos EUA no planeamento de forças da NATO” e admitiu que as responsabilidades militares poderiam ser “reorganizadas” (TRT World/Reuters).
A aritmética da incapacidade
A Europa opera cerca de 60 aviões-cisterna. Os Estados Unidos têm 610, numa proporção de dez para um (Aerospace Global News). A Europa não tem nenhum bombardeiro estratégico. O equivalente mais próximo é um Rafale francês armado com mísseis de 500 km de alcance; um B-52 pode atacar a partir de 8 000 milhas e permanecer vinte horas sobre um teatro de operações (ISS Europa).
A supressão de defesas aéreas inimigas, isto é, a capacidade de destruir os sistemas antiaéreos russos para permitir a operação dos aviões aliados, talvez seja a lacuna mais preocupante. Um investigador belga na área da defesa disse à Defence News que as forças aéreas europeias “abandonaram pura e simplesmente” este domínio e terão agora de o reconstruir “a partir do zero”. Três dos 16 analistas inquiridos estimaram que essa reconstrução poderá demorar mais de uma década (Defence News).
Um estudo do Instituto de Kiel, publicado em maio de 2026, estimou o custo total da autonomia estratégica europeia em cerca de 500 mil milhões de euros ao longo de dez anos, aproximadamente 50 mil milhões por ano, ou 0,25% do PIB europeu (Kiel/Defence News). A restrição decisiva, porém, não é apenas orçamental. É industrial. A Airbus está a ponderar aumentar a produção de aviões-cisterna, mas ainda não o confirmou. O substituto da NATO para a sua frota de radares aéreos em fim de vida ainda não tem contrato assinado. O primeiro míssil europeu de longo alcance só deverá chegar em 2029, no cenário mais cedo.
Duas contabilidades, uma Aliança
O SACEUR, comandante militar supremo da NATO, general Alexus Grynkewich, disse aos chefes militares aliados, em 19 de maio, que a redução norte-americana “não afeta a executabilidade dos nossos planos regionais” (NATO). Essa garantia referia-se à redução de tropas anunciada antes, não aos cortes nos meios facilitadores revelados dias depois. A ressalva que acrescentou foi mais reveladora: os EUA limitar-se-iam a fornecer “apenas as capacidades críticas que os aliados ainda não conseguem assegurar”. Os meios agora retirados são precisamente essas capacidades.
O padrão agrava uma dependência já instalada. Os aliados europeus compraram sistemas norte-americanos — F-35, baterias Patriot, lançadores HIMARS — a ritmos recorde. As Foreign Military Sales dos EUA absorveram 50,7% dos orçamentos europeus de equipamento entre 2022 e 2024, contra 27,8% nos três anos anteriores (Bruegel). Essas compras funcionaram em parte como seguro político: comprar armamento norte-americano para manter os EUA comprometidos com a defesa europeia. Washington está agora a retirar os compromissos operacionais que esses equipamentos deveriam complementar, enquanto a Europa se tornou mais dependente dos sistemas dos EUA. O ECFR alerta que uma leitura russa da NATO como “frágil e dividida” seria precisamente a condição mais propícia a erros de cálculo (ECFR).
O que Ancara não consegue resolver
A cimeira poderá aprovar metas de despesa e promessas de capacidades. Não pode fabricar aviões-cisterna, formar tripulações de guerra eletrónica ou colocar satélites em órbita. As promessas formais dos EUA serão apresentadas na reunião de junho; até lá, os números exatos continuam classificados. Nenhum responsável aliado afirmou publicamente se os planos de defesa de Vilnius continuam executáveis com o Modelo de Forças revisto. Nas conferências de imprensa, a pergunta tem sido sistematicamente contornada. Entre o que os líderes prometerão em Ancara e o que as fábricas podem entregar há um intervalo que se prolonga pelos anos 2030.
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