Barcaças dão nove dias à Roménia

A shrinking river leaves an entire power system waiting for water.
Composição da imagem · tobriefQuatro barcaças carregadas de pedra estão agora assentes no leito do Danúbio, afundadas de propósito para desviar mais água para Cernavodă, a única central nuclear romena em funcionamento. A barreira subaquática, improvisada em poucos dias, elevou o nível de captação de água para arrefecimento em 8 centímetros acima do previsto, permitindo que o reator 2 continue a operar durante pelo menos mais nove dias (Digi24, HotNews). Como noticiámos na quinta-feira, a Roménia já tinha informado a Comissão Europeia de que a seca punha Cernavodă em risco. Um secretário de Estado do Ministério dos Transportes avisou, entretanto, que a corrente do Danúbio pode ser suficientemente forte para deslocar as barcaças (Știrile ProTV). A solução é, por isso, quase tão frágil como o problema que tenta conter.
Porque é que o nível de um rio se torna uma crise eléctrica
Uma central nuclear é, antes de mais, uma máquina térmica: a fissão produz calor, o calor gera vapor, o vapor move uma turbina e esse vapor tem depois de ser arrefecido para voltar a água. Em Cernavodă, é o Danúbio que faz esse trabalho. Quando o nível do rio desce demasiado, as bombas perdem capacidade de sucção e os operadores têm de desligar o reator antes de as margens de segurança serem ultrapassadas.
O problema agravou-se porque um canal lateral, o braço de Bala, estava a desviar cerca de 85% do caudal local do Danúbio da rota que alimenta as bombas da central (Mediafax). A autoridade romena da água fez explodir uma formação rochosa submersa, dragou o canal e afundou depois as quatro barcaças cheias de pedra para estreitar a entrada do braço de Bala e empurrar mais água para Cernavodă (Agerpres, AP). A escolha das barcaças explica-se pelo calendário: podiam ser colocadas em dias, ao contrário de obras estruturais.
À entrada da Roménia, o Danúbio corria a cerca de 1 400 metros cúbicos por segundo, sensivelmente um terço da média de agosto, que é de 3 900. Os hidrólogos esperavam ainda uma descida para valores inferiores a qualquer mínimo já registado nesse mês (Radio România, Agerpres).
Cernavodă produz normalmente cerca de 20% da electricidade romena (World Nuclear Association). Com o reator 1 parado desde 28 de julho, a perda do reator 2 retiraria cerca de 650 a 680 MW da rede. A tensão já mudou a posição da Roménia no mercado: segundo a Serbia Energy, o país passou de exportador a importador, o preço grossista da electricidade para o dia seguinte subiu para 132,87 euros por MWh e foram necessários cerca de 1 700 MW de importações ao fim da tarde (Serbia Energy). A Nuclearelectrica avisou clientes de uma possível situação de força maior, isto é, uma notificação legal de que poderá não conseguir cumprir os contratos de fornecimento (ZF).
Rio partilhado, pressão desigual
A mesma seca está a comprimir toda a bacia do Danúbio. Na Hungria, a central nuclear de Paks reduziu a produção em 1 770 MW, ficando perto dos 230 MW, muito abaixo de uma capacidade normal próxima de 2 000 MW (kormany.hu). Como também perdeu a sua reserva nuclear, Budapeste teve de se apoiar nos vizinhos, cobrindo grande parte da diferença com electricidade de origem checa encaminhada através da Eslováquia. A própria Eslováquia tinha sete das oito turbinas da barragem hidroeléctrica de Gabčíkovo paradas por falta de água, e Bratislava recusou o pedido húngaro de aumentar o caudal libertado, dizendo que já estava a cumprir o previsto no tratado de Haia (TA3, Noviny.sk).
No curto prazo, a beneficiária é a Bulgária. A central nuclear de Kozloduy continuou a operar porque a sua estação de bombagem interior lhe dá uma margem de água que Paks e Cernavodă não têm. As exportações búlgaras subiram para 32 000 a 33 000 MWh por dia, à medida que operadores romenos e húngaros disputavam capacidade transfronteiriça (Mediapool). A Comissão Europeia disse estar a acompanhar a situação através da ENTSO-E, a entidade que coordena as redes eléctricas europeias, mas ainda não via uma ameaça de abastecimento que exigisse intervenção formal (European Commission).
Engenharia de emergência não é adaptação
A francesa EDF reservou quase 9 mil milhões de euros ao longo de 15 anos para adaptar o seu parque nuclear ao clima, antecipando perdas anuais de cerca de 5 TWh até 2050, por calor e baixos caudais, caso não haja investimento (Le Monde). Torres de arrefecimento evitam o problema da captação directa no rio; as centrais checas de Dukovany e Temelín já as usam (World Nuclear Association). As barcaças compraram dias à Roménia. Não resolveram o risco climático inscrito na produção eléctrica dependente de rios, e nenhum governo da bacia do Danúbio explicou ainda como tenciona fazê-lo.
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