Juros da dívida francesa a 4.93% apertam orçamento

Investors keep bidding for French debt as its cost climbs.
Composição da imagem · tobriefA agência francesa responsável pela dívida colocou, a 1 de outubro, uma obrigação com vencimento em novembro de 2036 a uma taxa de rendibilidade de 4,93 por cento, face a 4,23 por cento quando emitiu o mesmo título em 3 de setembro (Boursorama/Reuters). Os investidores apresentaram propostas por um montante muito superior ao que estava disponível (ABC Bourse). A França continua a encontrar quem lhe empreste dinheiro, mas cada novo empréstimo custa mais.
É essa subida dos custos que preocupa Emmanuel Moulin, governador do Banco de França. A 5 de outubro, disse ao Financial Times que, sem corrigir as contas públicas, o aumento dos juros poderia asfixiar gradualmente as finanças francesas. Defendeu um orçamento que reduza a despesa e o défice (Financial Times).
Porque demora anos até os juros mais altos pesarem nas contas
A taxa de rendibilidade é o retorno que o investidor obtém ao comprar uma obrigação ao preço de hoje. Como as obrigações francesas pagam um cupão anual fixo, quando o preço de compra desce, esse mesmo cupão proporciona uma rendibilidade maior. Os pagamentos das obrigações já emitidas não se alteram.
O custo mais alto surge quando a dívida é refinanciada: quando uma obrigação antiga, com juros mais baixos, vence, a França paga-a e emite outra às taxas então praticadas. O orçamento para 2027 identifica 189,2 mil milhões de euros de dívida do Estado, de médio e longo prazo, com vencimento no próximo ano (Assembleia Nacional). Como as obrigações francesas têm maturidades de vários anos, só uma parte da dívida é substituída em cada ano.
Um relatório do Senado francês mostra como este custo se acumula lentamente. O exercício pressupõe que as taxas sobem um ponto percentual e aí permanecem. No primeiro ano, apenas a dívida substituída fica mais cara, acrescentando cerca de 3,2 mil milhões de euros à fatura de juros do Estado. À medida que mais obrigações antigas são refinanciadas, o custo adicional chega aos 33,5 mil milhões de euros ao fim de nove anos (Senado francês). É um cenário, não uma previsão.
Quem recebe e quem suporta o custo
A previsão do próprio Governo abrange um universo mais amplo: inclui toda a dívida pública, incluindo a da Segurança Social e das autarquias. Calcula que os juros ascenderão a 79,2 mil milhões de euros em 2026 e a 91,2 mil milhões em 2027 (Governo francês). O órgão independente que fiscaliza as contas públicas chega a um valor semelhante para 2027 (Alto Conselho das Finanças Públicas). Esta projeção reflete a renovação gradual do conjunto da dívida, não o resultado de um leilão isolado.
Segundo foi noticiado, o orçamento terá assumido uma taxa média a dez anos próxima de 4,3 por cento ao longo de 2027, quando as cotações a dez anos rondavam os 5 por cento no início de outubro (Euronews). O primeiro valor é uma média anual; o segundo corresponde às cotações observadas em determinados dias. Se estas se mantiverem tão elevadas, a hipótese parecerá otimista.
Quem compra novas obrigações francesas beneficia de uma rendibilidade mais alta, que fica garantida durante vários anos. Já quem detinha obrigações francesas viu o seu valor de mercado cair. Se as mantiver até ao vencimento e a França pagar como prometido, não materializará essa perda.
O ajustamento deverá recair sobre os contribuintes e os rendimentos do setor público. O orçamento do primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, pretende reduzir o défice — a diferença entre despesa e receita — de 5,4 por cento do produto em 2026 para 5 por cento em 2027 (BFMTV). O congelamento dos salários na função pública e das pensões, além de eventuais alterações fiscais, deverá suportar boa parte do esforço (Public Sénat). Os partidos já disputam a forma como esse esforço será repartido (To Brief).
Porque exigem os investidores um prémio adicional à França
As taxas estão a subir em toda a Europa, mas a França paga mais do que a maioria dos países. A 5 de outubro, as obrigações francesas a dez anos rendiam cerca de 136 pontos base — 1,36 pontos percentuais — acima das alemãs (dpa-AFX). Em Espanha, o diferencial face à Alemanha era de 63 pontos base a 1 de outubro (CaixaBank Research). Como as datas não coincidem, os valores sugerem um prémio específico para a França, mas não permitem medi-lo com precisão.
Moulin disse que não era o momento de discutir uma ajuda do Banco Central Europeu. A Reuters chegou a uma conclusão semelhante: considera improvável que o BCE compre obrigações francesas para reduzir os custos de financiamento enquanto a pressão resultar dos problemas orçamentais do próprio país (Reuters).
Mesmo que o orçamento seja aprovado sem alterações, a dívida deverá subir para cerca de 121,7 por cento do produto em 2027 (Assembleia Nacional). Os deputados franceses não determinam as taxas de mercado, mas um orçamento credível é o principal instrumento ao seu alcance para influenciar o que os investidores exigem. A França encontrou compradores este mês. Se as taxas se mantiverem perto dos níveis atuais, cada refinanciamento anual aumentará a fatura dos juros: um processo gradual, pouco visível nas notícias, mas persistente o suficiente para comprimir outras despesas.
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